Festas do Espírito Santo

Study European PortugueseFestas do Espirito Santo, Azores.

Nesta altura do ano, em qualquer ilha dos Açores que estejamos e lugar dela que passemos vive-se um ambiente de festa – eis que chegamos ao Espírito Santo, semana na qual nos encontramos e à qual se segue a da “Santíssima Trindade”. Estas festas, apesar de se iniciarem depois do Domingo de Páscoa, em proporções menores, têm como dias principais as semanas que antecedem o Domingo do Espírito Santo e o seguinte da Trindade. Prolongando-se, por vezes, até ao verão, com famílias que aguardam a chegada de emigrantes açorianos que vêm de férias.

AS Festas do Divino Espirito SantoO culto do Espírito Santo, de inspiração franciscana, remonta ao tempo de D. Diniz e da Rainha Santa Isabel e, apesar de se ter iniciado em Portugal continental, onde atualmente já quase desapareceu, mantem-se bem vivo nos Açores, existindo ainda em locais como Brasil, EUA e Canadá levado por emigrantes açorianos. Este culto dignifica o Espírito Santo, uma das Pessoas da Santíssima Trindade, a par da exaltação da fraternidade, sendo esta a essência das Festas do Espírito Santo: a partilha do bodo (alimento) com os demais.

Esta festa é a Festa do povo açoriano, uma festa feita em forma de dádiva e partilha, através do pão, do vinho e da carne. E onde se encontra um dos pratos mais tradicionais e apreciados: as Sopas do Espírito Santo, ansiadas por muitos e comidas com deleite e sentimento, sentimento que é unânime a esta gente.

Festas do Espirito Santo - AzoresA cada ano são escolhidos os mordomos (pessoas que dão a festa) para o ano seguinte, guardando estes, em sua casa e em lugar de destaque, as insígnias do Divino Espírito Santo (coroa e prato, cetro, em alguns lugares uma espadinha, a imagem da Rainha Santa Isabel, varas de madeira e uma bandeira). Chegado o tempo da festa, estas insígnias são levadas para o império (pequeno edifício religioso original da arquitetura açoriana, semelhante a uma capelinha em miniatura) ou para a casa onde é celebrada a festa, aí é construído um altar, enfeitado com flores e bonitos tecidos, no qual são colocadas algumas insígnias. Junto a este é rezado um terço todas as noites, durante a semana que dura a festa (de domingo ao domingo seguinte), reunindo-se familiares e amigos dos mordomos para rezar e conviver.

Durante esta semana é cozido pão de trigo e massa sovada em fornos de lenha e no final da Azorean Culturesemana é preparada a carne, normalmente oferecida no cumprimento de promessas, que é cozida com couves e especiarias originando depois, a partir do seu caldo colocado a ferver em cima do pão cortado às fatias e aromatizado com folhinhas de hortelã, as tradicionais sopas do Espírito Santo, acompanhadas de vinho de cheiro e da deliciosa massa sovada. No sábado fazem-se papas de arroz (ou arroz doce), servidas como sobremesa no almoço da festa e em alguns lugares são feitos ainda outros tipos de doces tradicionais (queijadas, espécie, caramelos, suspiros, entre outros), sendo um dos mais antigos e apreciados o doce branco ou alfenim.

No domingo vai-sMaria Oliveira-European Portuguese and Culturee à igreja, onde é coroado o imperador, geralmente uma criança ou alguém escolhido, levando os familiares, amigos ou convidados, cada um uma das insígnias e acompanhando a coroa em procissão até à igreja. No final da missa é feita a coroação e regressa-se em procissão para o local onde são servidas as sopas. Ao final do dia, a coroa e as insígnias são levadas até à casa dos mordomos da semana seguinte, que as recebem durante essa semana.

Como já foi referido, as Festas em louvor do Divino Espírito Santo variam não só de ilha para ilha, mas até mesmo de freguesia para freguesia na mesma ilha, assim, poder-se-ão encontrar tradições distintas da aqui descrita sumariamente. Por exemplo, os bodos de leite, que fazem parte desta tradição, mas acontecem a um outro dia da semana, nos quais é distribuído vinho, massa sovada, queijo e tremoços por quem passa, havendo por vezes uma procissão com o gado oferecido para a festa, acompanhado de tocadores de músicas tradicionais.

Independentemente das características destas festas, não há, neste meio do atlântico,Maria Oliveira Language Learning Center quem não respeite e sinta o Divino Espírito Santo, sendo mesmo capaz de ultrapassar diferenças de crenças, trazendo todos a uma mesma mesa, onde se celebra a vida e aquilo que somos pela partilha, de uma forma simples, mas verdadeira, no fundo, uma ode à humanidade.

São assim, estas festas do Espírito Santo as principais festas dos Açores e o culto de máxima importância, celebrado nesta época, mas relembrado e respeitado todo o ano, uma marca cultural e etnográfica desta região, confirmado pelo Dia da Região Autónoma dos Açores que se assinala na Segunda-feira do Espírito Santo.

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A Quaresma nos Açores

Após a roda-viva do Carnaval, encontramo-nos no tempo da Quaresma. Nos Açores, com o passar do tempo, a prática de algumas das tradições foi-se desvanecendo, mas na memória ainda as encontramos a todas bem vivas.

A Quaresma nos Açores representa um tempo de reflexão, penitência e sacrifícios. Um dos principais reflexos destes propósitos está no tipo de alimentação adoptada. Na ‘Quarta-feira de Cinzas’, primeiro dia de Quaresma, é feita renúncia à carne, prolongando-se depois a cada sexta-feira até à Páscoa. Desta forma, a base das refeições, sobretudo em outros tempos, passava a ser o peixe, tortas de erva do calhau, cebola e salsa, as lapas, o polvo, ovos, queijo e sopa. Havendo também quem estabelecesse não comer carne durante toda a Quaresma.

Apesar da época ser essencialmente de sacrifício e restrições, por cá não perde a sua graça, trazida esta por um jogo bem tradicional: o balamento. Trata-se de um jogo muito simples (de origem, possivelmente, brasileira e não encontrado em Portugal continental), jogado a pares e que consiste em dizer ‘balamento’ ao adversário quando o vê pela primeira vez em cada dia. Quem chegar ao fim, normalmente ‘Sexta-feira Santa’ ou ‘Sábado Aleluia’, com mais balamentos dados ganha, recebendo do adversário um prémio: o balamento.  Segundo a tradição, este prémio/balamento será amêndoas, IMG_amendoasmas pode ser outro doce conforme o acordado, e é entregue no dia de Páscoa e repartido com os demais.

Hoje o jogo limita-se a crianças e jovens, mas ainda tenho na memória as histórias da minha avó (de como rasgou o vestido ao esconder-se para dar o balamento…), prova do entusiasmo que envolvia este jogo, na altura jogado por miúdos e graúdos, sendo os últimos os mais empolgados. O acirramento era tal que se engendravam artimanhas, a ponto de se disfarçarem para não serem reconhecidos ou passarem o dia a esconder-se do adversário, para o surpreender e dar o balamento!

Falar de Quaresma nos Açores é falar dos Romeiros, principalmente em SãoMaria Oliveira - Learn Portuguese Miguel, onde é uma das tradições mais vivas e sentidas. Estes Romeiros são peregrinos que todos os anos saem à rua ao longo destas cinco semanas para reafirmar a sua fé e a agradecer a Deus. Esta tradição remonta ao século XVI, quando zonas de São Miguel foram sacudidas por violentos tremores de terra, seguindo-se uma erupção vulcânica, à qual, numa população de 4500 pessoas, apenas sobreviveram 500.   Desde então há registos de todos os anos homens percorrem a pé as estradas à volta da ilha orando e cantando em voz alta. Os grupos compõem-se somente por homens, desde jovens a idosos, que durante uma semana caminham, levando consigo apenas um saco com os bens essenciais, um bordão, um lenço de lã e um xaile. Pernoitam em casa de pessoas que se oferecem para acolher os Romeiros e vão parando nas igrejas e ermidas que lhes surgem no caminho, chegando no 8º dia ao ponto de onde partiram.

Todavia, se a Quaresma tem o poder de acalmar o temperamento dos Açorianos, não tarda em chegar a Páscoa e com ela voltamos ao trabalho. Isto é, à cozinha a misturar ovos, açúcar, manteiga e farinha que, depois de amassados e cozidos, resultarão em lindos e brilhantes folares!

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Dia de Reis

Findado mais um ano e celebrado o começo de outro, depois dos brindes feitos e dos votos e as esperanças renovadas, eis que nos chega o Dia de Reis.

Dia de Reis - Learn to Speak PortugueseO Dia de Reis, segundo a tradição cristã, é o dia em que os Reis Magos – Gaspar, Melchior (ou Belchior) e Baltazar – chegaram a Belém a visitar o Menino, oferecendo-lhe Ouro, Incenso e Mirra simbolizando, respectivamente, a realeza, a divindade e a paixão de Cristo. Reza a lenda de que um dos Reis era negro e africano, outro branco e europeu e o terceiro moreno, sendo assírio ou persa, representando assim, a humanidade conhecida na época e a homenagem de todos os Reis ao novo Rei na Terra – o Menino Jesus. As lendas são muitas e chegam a divergir, assim como o significado dos presentes e dos próprios Reis. No entanto, apesar das acepções diversas do simbolismo deste dia, nos Açores a sua celebração é unânime, mantendo-se fiel ao longo dos anos.

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Adereços utilizados nos Reis

Mesmo para quem não celebra este dia como o dia da chegada dos Reis Magos junto ao Menino, este não deixa de ser um dia lembrado, sendo o dia em que marca o fim dos festejos natalícios. São assim, poucas as casas em que não seja este o dia, por excelência, para desmontar presépios, apagar as luzes da árvore de Natal e guardar todos os arranjos e decorações que embelezaram a casa nesta quadra. Mas se poderíamos imaginar este desmontar e guardar dos enfeites envolto em alguma tristeza e até saudosismo da alegria desta quadra, a verdade é que o facto de corresponder ao Dia de Reis vem trazer precisamente o contrário.

Este dia é tradicionalmente comemorado com canções e com a alegria e a magia inerente ao dia em que três Reis Magos vindos de tão longe finalmente alcançaram Belém e puderam visitar o Menino Jesus. É assim, com essa mesma alegria – de quem recebe uma visita de tão longe – que se celebra este dia. Nos Açores a tradição ainda bem viva é a de se formarem “Grupos de Reis” – grupos de amigos que se juntam semanas antes e ensaiam cânticos alusivos aos Reis Magos e a este dia, acompanhados por instrumentos tradicionais, como a Viola da

Dia de Reis - Learn Portuguese

Actuação do Grupo de Reis do Grupo Etnográfico da Beira

Terra, Bandolim, Violão, Ferrinhos, entre outros. O próprio reunir do grupo, para os ensaios que antecedem a actuação, é já motivo de alegria e parte da festa do Dia de Reis, pois os ensaios são preenchidos com muita alegria e entusiasmo. Na noite anterior e no respectivo dia, 6 de Janeiro o “Grupo de Reis” percorre as casas da freguesia ou localidade a que pertence, cantando em todas as casas – personificando a alegria do Menino Jesus e seus pais ao receber a visita dos Reis vindos do Oriente e dos mesmos ao visitá-lo. Estes grupos são esperados com grande expectativa pela família, ao chegarem actuam, sendo depois ‘brindados’ com as tradicionais iguarias e licores da época. Em algumas ilhas grupos de diferentes localidades juntam-se na noite do dia 6 e actuam juntos, proporcionando uma noite de convívio na comunidade.

Em Portugal Continental é tradicional comer-se o Bolo Rei, ditando a tradição que quem comer a fatia do bolo que contiver a fava (previamente colocada a quando da cozedura) comprará o Bolo Rei do próximo ano.

E é assim, no Dia de Reis e envoltos na alegria que nos trouxe esta época que lhe dizemos até para o ano e fazemos o propósito de perpetuar o amor e a paz por ela trazidos por mais um ano.

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